II – Nada será como costuma ser. Nada vai ser fácil pra você
Chegaram ao vilarejo pela madrugada. As ruas estavam desertas, exceto por um jovem embaixo de um poste logo na entrada. Tinha cabelos negros enrolados na altura do ombro e seu rosto era muito parecido com o homem que haviam encontrado.
- Mestres! – Ethan correu em direção aos dois mostrando o caminho para a casa onde ficariam.
- Obrigado, Ethan. Amanhã cedo esteja preparado para o início de seu treinamento. – Camus arrumava suas coisas em uma das camas do único quarto.
- Agora vá descansar moleque. – Milo fazia o mesmo na outra cama.
O menino saiu deixando os dois adultos no quarto.
- Kyu, tá muito frio! – o grego acostumado com o calor fez um biquinho.
- Você não viu nada ainda... – Camus colocava fogo na lareira que havia no quarto, de frente para um sofá.
Milo, enrolado em um cobertor, sentou-se em um tapete no chão, ao lado do francês.
- Chega mais, cubo de gelo. – passou o cobertor sobre os ombros largos do amigo, fazendo o mesmo com seu braço.
- Crianção... – Camus ajeitou-se melhor no abraço do loiro. – E então, pronto para ter seu primeiro pupilo?
- Você fala como se fosse a coisa mais linda do mundo.
- Mas é, Milo. Você será reconhecido e poderá se orgulhar em tem um cavaleiro poderoso como aprendiz.
- Com mestres como nós não tem como não se tornar poderoso.
- Exibido.
Ficaram em frente a lareira até ambos adormecerem ali mesmo.
oOoOoOoOoOo
Camus acordou quando uma fina luz do sol tocou seu rosto, seu sono leve não o deixava dormir mais. Percebeu que estava no chão, o corpo de Milo abraçado ao seu, alguns cachos loiros estavam no rosto de Camus.
Tirou o cabelo do rosto e mirou a face que repousava em seu peito. Milo tinha a expressão relaxada, parecia um anjo (pelo menos enquanto dormia)
- Mon ange... – disse baixo. Um sorriso surgiu nos lábios de Milo – Idiota! – jogou o amigo para o lado.
- Ei Kamyu, calma aí. – disse sentando-se de frente para Camus – Você também parece um anjo enquanto dorme. – Seus olhos brilhavam enquanto se aproximava mais do ruivo.
- Não enche! – Levantando-se, pegou suas roupas e foi para o banheiro.
Com um sorriso a La Cheshire(1) no rosto, Milo começou seu dia. Esperou Camus sair do banheiro e foi se arrumar. Enquanto isso o francês preparava o café da manhã na pequena cozinha da casa.
- Tô morrendo de fome. – Milo entrou na cozinha se espreguiçando.
- Conte algo que eu não sei. – Camus terminava de coar o café e colocava na mesa, onde já havia pães, queijos [que o francês adorava], frutas e todas aquelas coisas para por no meio do pão.
- Hm... você não sabe como fica lindo dormindo... – o ruivo corou – ou corado. – não segurou o riso
- Come e fica quieto, artrópode.
-Ui ui ui, estressei o pinguim.
Após a troca de elogios, a refeição correu normalmente. Limparam a cozinha e foram para uma espécie de arena que tinha próxima ao vilarejo. Era uma típica manhã de início de inverno, o céu estava limpo e a temperatura muito baixa.
Ao chegarem a uma área aberta com uma arena circular com arquibancadas em volta Ethan já esperava pelos dois. Quando os viu, correu para o meio da arena.
- Bom... eu sou Camus, cavaleiro de Aquário. E este – pegou no ombro de Milo – é Milo, cavaleiro de Escorpião. Juntos, vamos treinar você para ser o cavaleiro de Lince. Esteja ciente de que você deve levar seus treinamentos muito a sério, e principalmente, nos levar a sério – Deu ênfase em ‘nos’
- Você ainda é jovem, essa é a melhor idade para começar o treinamento. Já teve treinamento físico?
- Sim, mestre. Meu pai me fazia treinar quase todo dia!
- Ótimo, já é um começo. Vamos começar pelo cosmo, o mais importante para um cavaleiro...
Então Camus começou a explicar sobre basicamente tudo que um cavaleiro precisaria saber, enquanto Milo complementava o que era dito. Após a explicação sobre o cosmo, começaram a ensinar como liberá-lo para poder lutar com mais força e resistência.
Após algumas horas de esforço, seu cosmo começava a despontar. Os dois mestres se assustaram ao sentir aquela energia. Apesar de pouca era muito forte, e o pior de tudo, tremendamente parecida com a do cavaleiro do outro dia.
- Ótimo Ethan. Acho que está bom por hoje. Tenho só uma pergunta...
- Diga mestre Camus.
- Você falou que seu pai fazia você treinar. Quem é ele?
- Ah, é o cavaleiro de Tucan. Ele saiu em uma missão há dois dias, mas não quis dizer sobre o que se tratava.
- Entendo... Pode descansar por hoje, amanhã o treino será mais puxado. – Camus e Milo trocaram olhares significativos.
Já passava da hora do almoço, os dois cavaleiros chegaram a casa em silêncio, apenas esperando ficarem sozinhos.
- Kamyu... Você não tá pensando o mesmo que eu, né? – Milo desatou a falar após sentarem no sofá do quarto.
- Sim, eu estou. Faz sentido. Ele queria dizer algo sobre Ethan, falando que não podíamos treiná-lo. Mas você e seu ‘senso de justiça infalível’ não deixaram ele terminar de falar.
- Ok, já entendi. A culpa é minha.
- Mas agora não adianta mais. Já está feito. Mas se Ethan descobrir que fomos nós, estamos numa baita encrenca.
oOoOoOoOoOo
Após cerca de duas semanas de treinamento árduo, mas ainda com descontroles do cosmo, Ethan começa a ficar desligado de tudo por causa da ausência do pai.
Quando chegaram em casa depois do treinamento daquele dia, Camus se sentou no sofá e disse para Milo que tinham que conversar.
- Olha, Mi. Daqui a pouco alguém vai começar a procurar pelo pai do garoto, acho melhor a gente contar para o Shion o que aconteceu.
- Mas Ethan não pode saber que estamos envolvidos nisso. Ele não iria mais confiar na gente! Não podemos perder um cavaleiro que se tornará tão poderoso como ele.
- Certo... – o francês massageava a têmpora, pensativo. – Vou escrever uma carta para o Shion.
Dirigiu-se à escrivana que ficava em um canto da sala, pegou papel e caneta e começou a escrever. Milo se espantou com a rapidez do ruivo em colocar tudo no papel tão rapidamente. Descreveu toda a história para o Mestre do Santuário e pediu sigilo sobre o assunto.
Logo após terminar, foram ao pequeno correio (se é que podia chamar aquilo de correio) e enviaram a carta.
- É meu amigo artrópode, agora é só esperar.
Continua...
(1) o gato risonho de Alice no País das Maravilhas
Nenhum comentário:
Postar um comentário